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Série sobre apoio do grupo Folha à ditadura é lançada por equipe de professora da UFRRJ

A obra, que será exibida a partir de 27 de abril na Plataforma ICL (Instituto Conhecimento Liberta), teve sessão especial para convidados no Rio de Janeiro

No dia 27 de março último, aconteceu a pré-estreia da série documental Folha Corrida, no Cinema Estação NET-Rio, em Botafogo, com a presença de jornalistas, ativistas pelos direitos humanos e vítimas da ditadura militar. A série apresenta documentos e relatos inéditos que comprovam a colaboração do Grupo Folha com a repressão durante os anos da ditadura militar no Brasil e é fruto da pesquisa da professora Flora Daemon, do curso de Jornalismo da UFRRJ, com docentes de outras cinco instituições brasileiras.

Baseada na pesquisa “A responsabilidade de empresas por violações de direitos durante a Ditadura: o caso Folha de S.Paulo”, realizada com apoio do Ministério Público Federal, a série traz à tona a atuação do grupo de mídia no golpe de 1964 e no fortalecimento do regime autoritário. A produção conta com quatro episódios de aproximadamente 30 minutos e expõe como a empresa contratou militares e policiais para atuar internamente, monitorou e demitiu jornalistas de forma ilegal e forneceu veículos para operações de sequestro e assassinato de opositores políticos.

Durante dois anos, a equipe composta por Ana Paula Goulart Ribeiro (UFRJ), Amanda Romanelli (PUC-SP), André Bonsanto Dias (UEM), Flora Daemon (UFRRJ), Joëlle Rouchou (FCRB) e Lucas Pedretti (UERJ) aprofundou as investigações sobre denúncias levantadas no âmbito da Comissão Nacional da Verdade. A pesquisa resultou em um inquérito aberto pelo Ministério Público Federal e na série Folha Corrida – dirigida por Chaim Litewski, cineasta reconhecido pelo documentário Cidadão Boilesen (2009).

“O Grupo Folha conseguiu realizar um impressionante reposicionamento de imagem sendo, atualmente, muito mais associado à democracia do que à repressão. Esse fato contrasta com a sua intensa colaboração material com a ditadura que nosso livro e nossa série apresentam em detalhes. Sabemos do peso dessas revelações e da responsabilidade de trazê-las à sociedade. Sobretudo porque o Ministério Público Federal abriu um inquérito para investigar a empresa a partir dos documentos, testemunhos e provas que coletamos”, explica Flora Daemon.

“Foi um projeto muito desafiador. Muitas questões, mas muito prazeroso também. É uma satisfação enorme ter feito esse trabalho, que a gente reconhece ser de uma importância muito grande – não só pelo o que ele representa de revisão da historiografia brasileira -, mas da história da imprensa, jornalismo brasileiro e da ditadura brasileira. E, também, o que é importante para hoje: revisar a memória do nosso passado é fundamental para elaborarmos o que é nossa democracia e como fortalecê-la. É um trabalho para mostrar o que nós somos hoje como sociedade e o que nós queremos ser no futuro’’, afirma Ana Paula Goulart.

“Para mim, é um privilégio e uma honra trabalhar com esse grupo de pesquisadores que produziu esse trabalho extraordinário, conduzido pela Ana Paula e Flora. Pessoalmente, eu vejo a minha contribuição como uma contribuição para a historiografia. De maneira geral, as pessoas sabem que a Folha é envolvida com a repressão, mas não sabem a maneira que foi. O que tentamos fazer, seguindo o espaço da pesquisa, foi tentar juntar as coisas: todos os crimes que foram cometidos, as diversas maneiras que o grupo colaborou com a repressão e, no meu caso, de ser o diretor da série, criar uma narrativa audiovisual em cima da pesquisa’’, conta Chaim Litewski.

Em uma aparição especial, Rosa Cardoso, ex-coordenadora da Comissão Nacional da Verdade, conta sobre seu tempo atuando nessa temática e esclarece seu ponto de vista sobre ainda estar participando ativamente: “A transição de regime, aqui no Brasil, não terminou. E a justiça de transição, portanto, também não terminou. E ela precisava ter algum desenvolvimento a partir dos grandes marcos e instituições que ela gerou, como a Comissão de Anistia, como a Comissão de Mortos e Desaparecidos, como a própria Comissão Nacional da Verdade. Após a CNV, o que temos de continuidade? O livro acabou de ser lançado. O documentário está sendo. Portanto, este estudo sobre a cumplicidade dos civis e dos civis empresários com a ditadura é um fato a ser melhor conhecido, sobretudo para que não se repita em outros regimes de força. Para que os empresários saibam que não podem escravizar as pessoas. Mesmo no governo ditatorial, eles têm uma responsabilidade direta sobre esses fatos que praticam’’, relata Rosa Cardoso.

Com roteiro assinado por Marta Nehring e trilha sonora de Luiz Macedo, Folha Corrida contará sobre um dos capítulos mais sombrios da história da imprensa brasileira e reabrirá o debate sobre a responsabilidade de grandes empresas na violação de direitos humanos durante a ditadura.

A série será exibida a partir de 27 de abril, pela Plataforma ICL, do Instituto Conhecimento Liberta.

Texto e foto: Rodrigo Maciel Vidal

Exibição do documentário “Folha Corrida”, no Cine Estação NET-Rio, em Botafogo (zona sul do RJ)